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Haro: o Carnaval do vinho que vai te surpreender

Todo 29 de junho, a cidade espanhola amanhece de branco e termina de roxo

Por CamilinhaVale o Desvio
Batalha dos Vinhos: milhares de pessoas vão às ruas
Vale o
Desvio?

Batalha dos Vinhos: milhares de pessoas vão às ruas — foto: Camilinha

Chegamos a Haro, coração da Rioja (Espanha), no dia 28 de junho e não precisamos perguntar a ninguém se estávamos no lugar certo.

Era véspera de uma grande tradição local: a Batalha do Vinho. A cidade já estava em festa.

Pelas ruas, muita gente vestia branco, quase sempre com o tradicional lenço vermelho no pescoço, e outros acessórios que antecipavam o que aconteceria na manhã seguinte.

Tinha música, grupos espalhados, bares cheios e uma alegria coletiva que faz você perceber rapidamente que não está diante de uma atração criada para turista.

A festa acontece anualmente em 29 de junho, dia de São Pedro, e é oficialmente reconhecida como Festa de Interesse Turístico Nacional.

O cenário principal fica nos Riscos de Bilibio, a cerca de 6 km da cidade, onde está a ermida de San Felices. A tradição está ligada a séculos de peregrinação ao lugar associado ao padroeiro de Haro.

Só que, em algum momento dessa história, romaria e vinho viraram uma celebração só. E o resultado é uma das festas mais alegres e diferentes que eu já vi.

Se você tiver alguma chance de planejar sua viagem para estar lá nesta data, você não vai se arrepender. E nem precisa fazer tudo para se divertir.

Às 7h, Haro já está de pé

Na manhã seguinte, acordamos cedo.

Às 7h, encontramos uma fila que parecia não acabar. Eram as pessoas esperando os ônibus que saem do centro em direção aos Riscos de Bilibio.

E não era exagero de organização: naquele dia, a programação oficial previa os ônibus começando a subir justamente às 7h, os romeiros partindo às 8h e a missa na ermida de San Felices às 8h45.

Depois da missa e do lançamento de um foguete, está oficialmente aberta a batalha.

A ideia é simples: todo mundo sobe de branco (roupas velhas são recomendadas, rs) e não se deve continuar branco por muito tempo.

Com garrafas de plástico, baldes, pistolas de água, borrifadores, o plano é deixar o coleguinha inteiro molhado e... roxo.

E funciona assim: enquanto houver vinho, as charangas — bandas que acompanham a festa — continuam tocando.

Nós tentamos subir. Não deu

Como estava chovendo e tinha aquela fila gigante, nossa ideia era chegar lá em cima de carro. O trânsito não deixou. Conforme avançávamos, ficava cada vez mais claro que chegar lá em cima seria uma operação bem mais complicada do que parecia.

Acabamos desistindo antes de completar a subida. Tínhamos uma visita a uma vinícola marcada, ficamos com medo de tudo atrasar e já estávamos felizes com tudo o que tínhamos visto até ali.

Quando voltamos para a cidade, encontramos aquelas centenas de pessoas que tinham saído de branco agora completamente tingidas de vinho.

A batalha volta para Haro

Todos molhados de vinho e de volta à cidade, a festa ainda estava longe do fim.

A programação oficial prevê a volta dos participantes para a Plaza de la Paz por volta do meio-dia. Ali acontecem as chamadas vueltas, com as charangas e as peñas (como se fossem os nossos blocos de Carnaval) percorrendo as ruas.

Foi essa parte que conseguimos acompanhar. Bandas pelas ruas, gente cantando, dançando, grupos ainda completamente tingidos de vinho e uma cidade tomada pela festa.

É um clima impressionante mesmo para quem conhece o Carnaval do Brasil.

A sensação o tempo todo é de uma festa organizada, sem confusão, aberta para crianças, jovens e idosos.

Como uma romaria virou uma batalha de vinho

A origem é 100% religiosa. Depois da morte de San Felices de Bilibio, em meados do século VI, moradores da região passaram a visitar o local nos Riscos de Bilibio onde estavam seus restos.

Segundo registros, a peregrinação aconteceu de forma mais ou menos espontânea. Por volta do século XV, o Conselho de Haro passou a incentivar oficialmente a romaria. No século XVIII, foi construída a primeira ermida nos Riscos de Bilibio e a peregrinação ganhou ainda mais força e virou uma celebração anual em homenagem a San Felices, que se tornou padroeiro de Haro.

Já perto do início do século XX, começaram os chamados “batismos de vinho”: os participantes passaram a molhar uns aos outros durante a festa.

Em 1898, o Diario de La Rioja registrou que, quando o jornal chegasse às mãos dos leitores, a tradicional romaria já teria terminado e haveria “algumas cântaras de vinho a menos nas bodegas e algumas a mais entre o corpo e a roupa”.

O registro é uma prova de que a mistura entre romaria e vinho já existia naquela época. Os “batismos” foram crescendo, o vinho virou munição e a tradição acabou se transformando na batalha que existe hoje.

A batalha acontece pela manhã, mas eu reservaria o dia inteiro — e a noite anterior — para Haro.

Porque mesmo sem ter conseguido chegar ao campo onde acontece a guerra propriamente dita, uma coisa ficou clara para mim: a Batalha do Vinho não é apenas a guerra em si. É a cidade inteira em festa.

Noite anterior à Batalha dos Vinhos, centenas de pessoas pelas ruas

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